História da Cidade

NOTAS SOBRE ANTONIO CARDOSO-BA
Mons. Renato de Andrade Galvão

As terras do atual município de Antonio Cardoso, como todas as áreas banhadas pelo Rio Jacuípe, foram outrora povoadas pelos Índios Paiaiases. Viveram em lutas continuas e guerras de extermínio com os poderosos Maracazes que dominaram o vale do Paraguassú e as terras úmidas do Jequiriçá. Batidos pelos brancos foram recuando para as bandas de Saúde e Jacobina, legando o nome da tribo na toponimiade várias regiões, o que atesta dispersão.O livro “Santuário Mariano e História das Imagens Milagrosas de N.Senhora”, de Frei Agostinho de Santa Maria, publicado em Lisboa (1722), trás a lume importantes revelações sobre povoamento na região (1).Em 1690, a ermida de Santo Estevão Velho com a fazenda do Padre José de Aragão e Araujo, oito léguas distantes da Matriz de N.Senhora do Rosário do Pôrto da Cachoeira, ressaltando a devoção dos pretos (1707) á imagem de N. Senhora do Rosário. Segundo velha tradição a propriedade teria passado ao patrimônio do celebre Seminário de Belém, com mais de dez léguas para o interior, desde o Paraguassú, com limites entre o Curumataí e Cavaco. Com a extinção da Companhia de Jesus (1759), seguida de sequestro de bens que foram postos em ata pública, veio à divisão das terras em logradouros, as mais antigas fazendas, coincidentemente, ainda conservam nomes do agiológio da Igreja, tais como Santa Cruz, Santo Antonio, São Joaquim, Santa Tereza, São Domingo, São Francisco, São Tomé, Santa Clara, Santa Bárbara, S. das Candeias e Senhor do Bonfim. Foram núcleos de penetração e fíxação do homem á terra no período setecentista. Manoel Justiniano dos Santos, último proprietário da fazenda Santo Estevão chegou a possui mais de duzentos escravos. Tudo índica que houve seleção do colonizador negro, predominando e conservando até os nossos dias o tipo sudonês, em geral de grande estatura, organizado o trabalhadores. Na micro-região de Feira de Santana os “bantus” prevaleceram nas importações. Vale ressaltar a observação para estudos de antropologia. Apossar das terras férteis, como território de Cachoeira, segundo repetidos alvarás régias, a área era reservada ao plantio de fumo para comércio e escambo na África, em troca de escravos. O Padre Antonio (no seu verdadeiro estudo da economia brasileira. (1711) podia afirmar que o melhor tabaco era produzido na freguesia de Cachoeira e suas nexas (São Gonçalo e São José das Itapororocas). O local da atual Cidade de Antonio Cardoso ficava á margem da estrada de penetração ao Porto da Cachoeira (Cachoeira conforme os velhos documentos) para o Camisão e o alto sertão da margem esquerda do Rio Paraguassú, bifecunde-se os caminhos, via Bonfim de Feira (Calumbi) e Santo Estevão.

As nossas cidades nasceram como pousadas de tropa ou descanso de um dia de marcha das boiadas. O núcleo inicial crescera tanto que, a 12 de agosto de 1823, o Vigário de Santo Estevão do Jacuípe em ofício ao Vigário Capitular do Arcebispado da Bahia, então em sede vacante, pedia e obtinha autorização para erigir uma capela dedicada a N. S. do Resgate (nª3), garantindo o patrimônio das terras adjacentes com doações do Sargento Mor Francisco José da Silva Almeida e sua mulher D. Antônia Francisca de Almeida, conforme escritura pública lavrada na Vila de Cachoeira, com referências a terras da fazenda Cavaco. Esse casal benemérito teria lançado o marco da futura cidade. No Arcebispado foi registrada a “casa de oração” no lugar denominado Umburanas ou (Gravatá, com ampliação e ratificação dos herdeiros Matias da Costa Almeida e suas irmãs (1840), por isso mais de dois terços da área urbana está edificada em terreno foreiro da Matriz. No regime de padroado, unida a Igreja ao Estado, comprovadas a densidade de população e o bem espiritual das comunidades a Assembleia Provincial decretou e o ilustre Presidente da Província Joaquim José Pinheiros de Vasconcelos sancionava a Resolução nº 183, de 10 de abril de 1843, criando a freguesia de N. S. do Resgate das Umburanas, desmembrada da freguesia de Santo Estevão. Coube ao Arcebispo Dom Romualdo Antonio de Seixas, Marquês de Santa Cruz, fazer a ereção canônica (4). A elevação de uma Capela á condição de Matriz com os limites geográficos de circunscrição eclesiástica, continha os forais de distrito, colégio eleitoral próprio, criação de escola pública. Era sempre, um passo decisivo para novas conquistas. Por algum tempo os registros de terras foram feitas nas Paróquias. o primeiro Vigário foi o Padre José de Freitas e Almeida que ali viveu de 1843 até 1862, conforme os termos assinados nos livros de casamentos e batizados. No Arquivo Público do Estado, nas coleções de cartas e correspondências com os Presidentes da Província (5), encontrei três cartas do primeiro Vigário, cujas cópias estão em nosso modesto documentário. São pedidos de auxílios para a pobre mátris que é mais a “casa de oração”, as prestações de contas ao Juiz de Cachoeira, o isolamento do arraial nas cheias dos rios. Um mapa de freguesia com estradas reais, a falta de correio, a necessidade de duas canoas para as travessias do Paraguassú e que em 1846 o arraial da sede da freguesia tinha apenas 26 ou 28 casas residenciais. As outras cartas descrevem os rios, a Inexistência de serras, sendo a maior elevação o monte da Cabana, falta de lagoas. Havia estradas pouco cultivadas, ressaltando a comunicação com a “Feira do Curralinho, Muritiba e o Pôrto de São Felix, funcionando na freguesia “pequena feira de carne verde no dia de sábado com cargas de farinha”.

Outro fato digno de mensão é a variedade de nomes desde a fazenda, povoado e distrito de paz. Os documentos falam em terras do Cavaco. Porteira, lugar denominado Umburanas ou Gravatá, Uberlândia, Tinguatiba a finalmente Antonio Cardoso. O mesmo território conheceu verdadeiro rodízio de domínio e a Jurisdição dos vizinhos desde Cachoeira, Santo Estevão, retorno a Cachoeira a a Lei’ nº 804/1876 incorporou-se a Feira de Santana. Ao ser criada a vila de São Gonçalo dos Campos, pela Lai nº 8460, de 28 da julho da 1884, a freguesia de N. S. do Resgate das Umburanas passou a integrar o território daquele município como distrito, até a sua autonomia no Governo Juracy Magalhães, pela Lei na 1682, da 18 da abril da 1962. Merece ser lembrado o esforço e protesto de Tito Ruy Bacelar, Conselheiro Municipal, Jornalista, Deputado e Defensor intransigente dos direitos de Feira da Santana, na sessão de 15 de junho de 1881 clamava contra as pretensões de São Gonçalo de incorporar ao seu território as freguesias de Umburanas a Bonfim da Feira. Durante o império a na primeira República as sedes dos municípios eram vilas com Câmaras a Governo próprios. Somente os grandes centros obtinham as prerrogativas da Cidade com o aumento em geral, de sete para nove vereadores que aram chamados “Conselheiros”.

Antonio Cardoso de Sousa, que deu nome ao município – e á cidade, pela a inscrição na lapide tumular nº 10 de maio de 1848 e faleceu a 10 de outubro de 1932 (nº 07). Conforme os autos do inventário, era natural da freguesia de N. S. do Regate das Umburanas, filho legítimo de Manoel Cardoso da Sousa e D. Maria Louvada. Não foi encontrado, todavia o registro de Batismo nos livros da época existentes no Arquivo Diocesano. Os homens estão vinculados ao contexto social do tempo em que viveram. Assim devem ser estudados e analisados. Homem dedicado ao trabalho, foi do numerosa prole, possuidor de extensas propriedades e hospitaleiro, nele o poder econômico estava aliado ao poder político. Os velhos chefes sertanejos eram em geral inteligentes, corajosos, homens de liderança fortes, cheios de bom senso, força moral e equilibrados. Desde o império e até mesmo no tampo da velha República, os governos se apoiavam no poder fundiário a até dependiam das oligarquias rurais. Em Umburanas não se iria fugir ao modelo político da ápoca. A representação política do distrito teve continuidade no espírito pacato e conciliador de seu genro Tibúroio José de Oliveira. Na descendêcia do Cel. Antonio Cardoso de Sousa, um neto foi o primeiro, prefeito eleito do município, o terceiro foi um bisneto e o quarto, o atual chefe do executivo Luis Cardoso de Oliveira (1979), também é seu neto. As lideranças marcam a vida do povo. Dirigem a história de suas comunidades. Júlio de Castilhos, positivista, setenciou que os mortos continuavam dirigir os vivos.

NOTAS:
01 – Vide: Vol. XX, representa da Revista do Instituto Geográfico e Eis Histórioo da Bahia – Fls. 152 e 153. – Frei Agostinho de Santa Maria.
02 – Grandesa e Opulência do Brasil por suas drogas a Minas, – Padre An onil (1711).
03 – Doc. Cúria Diocesana, Feira de Santana transferida do rcebispado da Bahia.
04 – Coletânea de leia e Resoluções do Governo Provincial sobre as Paróquias – Arquivo do Arcebispado da Bahia.
05 – Correspondências dos Presidentes de Província (Religião -maço 5214- – 1846 – 1852 – Arquivo Público do Estado.
06 – Atas do Conselho Municipal – Arquivo da Camara de Vereadores de Feira de Santana – volume de Atas de 1881 -Fls. 134-V.
07 – Vide autos de inventário julgado em São Gonçalo dos Campos (l938) pelo Doutor Nicolau Talentino de Barros, Juiz de Cachoeira.
08 – O distrito recebeu o nome de Uberlândia pelo decreto Estadual nº 11.089, de 30.11.1938 e Tinguatiba pelo  decreto-lei nº 141, de 31.12.1943.

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